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Tendências para os pais em 2027, e o que já dá para descartar

Frederico Ferreira

Por Frederico Ferreira

Pai da Ana Beatriz e fundador do Fator Pai

Publicado em 4 min de leitura

Pai e filha preparando alimentos frescos na cozinha

Toda virada de ano traz uma lista do pai ideal novo. A maioria não sobrevive ao segundo mês de sono interrompido. O que separa uma tendência que vale a pena de uma moda que só vende produto é uma coisa só: se a ciência ainda sustenta a ideia depois que o entusiasmo passa. Na semana […]

Toda virada de ano traz uma lista do pai ideal novo. A maioria não sobrevive ao segundo mês de sono interrompido. O que separa uma tendência que vale a pena de uma moda que só vende produto é uma coisa só: se a ciência ainda sustenta a ideia depois que o entusiasmo passa.

Na semana em que completei mais uma volta com a Ana Beatriz, me vi cercado por um brinquedo de plástico que cantava o alfabeto em três idiomas e por um pote de purê com selo de superalimento. Nenhum dos dois venceu o dia. Ela passou a tarde empilhando potes de molho na bancada da cozinha e comeu abacate amassado com as próprias mãos. Foi aí que achei valer a pena separar o que a criança precisa do que o mercado empurra como novidade para 2027. Uma observação honesta antes de seguir: não existe pesquisa datada de 2027. O que existe é evidência publicada entre 2024 e 2026, e é dela que tiro as projeções a seguir.

Brinquedo: menos luz, mais mão

Um estudo publicado no JAMA Pediatrics, em 2016, pela pesquisadora Anna Sosa mostrou algo que qualquer pai cansado já desconfiava. Brinquedos eletrônicos que falam e acendem reduziram a quantidade e a qualidade da comunicação entre o bebê e o adulto. Livros, blocos e brinquedos tradicionais fizeram o caminho oposto: mais palavras trocadas, mais turnos de conversa, mais atenção conjunta. A lição não muda só porque o calendário virou. Brinquedo bom é o que deixa a criança comandar a brincadeira, e não o que comanda a criança.

escrevi sobre isso ao comparar madeira e plástico, e a conclusão foi a mesma: material menos instruído costuma dar mais estímulo. Para quem quer fugir do brinquedo que aperta e fala, vale olhar jogos e peças para montar e encaixar nesta seleção da Amazon (link de afiliado).

Tela: o problema não é o cronômetro

Em telas, a ciência também virou a chave. A Sociedade Brasileira de Pediatria atualizou em 2024 o documento #Menos Telas #Mais Saúde. A Academia Americana de Pediatria foi na mesma direção em 2026, ao abandonar a obsessão pela contagem de horas e focar no contexto: quem está junto da criança, que conteúdo é, e como a família organiza o uso. O que descartar é a ideia de que existe tempo de tela bom solto no colo. O que manter é o plano familiar de mídia, o adulto que assiste junto e o cuidado de evitar telas solitárias antes dos dois anos.

Comida de bebê é comida de família

Em nutrição, o dado mais sólido é o mais antigo e o mais desrespeitado. O Ministério da Saúde é claro no Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos: nada de açúcar antes dos dois anos, e prioridade a alimentos in natura e minimamente processados na introdução alimentar, que começa por volta dos seis meses. Uma revisão publicada na Frontiers in Nutrition em 2026 reforça o que pais já sentiam: o consumo de ultraprocessados na primeira infância se associa a prejuízos que não aparecem na embalagem do purê.

A virada aqui é entender comida de bebê como comida de família, e não como uma categoria industrial à parte. O modelo de responsabilidade dividida, formulado pela nutricionista Ellen Satter, traduz isso sem receita mágica: o adulto decide o quê, quando e onde; a criança decide se come e quanto. Nada de negociar colherada por tablete. Escrevi sobre a introdução pelo prato com sucção.

Aí está a síntese do que a ciência sustenta para os próximos anos.

Tendência Manter Descartar
Brinquedos Material aberto: blocos, livros e peças para montar e encaixar Brinquedos eletrônicos que falam e comandam a brincadeira
Telas Plano familiar de mídia e adulto que assiste junto Contagem rígida de minutos como única regra e a tela como babá
Alimentação Comida in natura, responsabilidade dividida e açúcar só depois dos 2 anos Ultraprocessados infantis e purês com açúcar e selo de superalimento
Presença Brincadeira, conversa e presença do pai desde a primeira infância A ideia de que qualquer produto substitui o adulto presente

A virada que pouca lista menciona

A virada, e talvez o ponto que mais interessa a um pai, é que a maior tendência confirmada pela ciência não está na prateleira nem no prato. Está no adulto em volta da criança. Uma revisão de 2025 na Annual Review of Developmental Psychology mostrou que a relação pai-criança na primeira infância, feita de brincadeira, conversa e presença, contribui para o desenvolvimento de formas que o brinquedo mais caro não consegue imitar. O brinquedo é pretexto. O pai é o estímulo.

Se 2027 servir para alguma coisa que valha guardar, talvez seja para lembrar que brinquedo bom é o que permite errar de novo, comida boa é a que ainda lembra de onde veio, e que nenhuma tendência substitui o pai que senta no chão. Ana Beatriz me ensinou isso com potes de molho. O resto é catálogo.

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