Ser pai depois dos 40: o que a ciência diz sobre riscos, vantagens e o relógio biológico masculino que ninguém conta
Pai da Ana Beatriz e fundador do Fator Pai
8 de junho de 2026 • 3 min de leitura

Um estudo da Universidade de Stanford com mais de 40 milhões de partos confirmou: a idade do pai importa. O que a ciência diz sobre riscos, vantagens e o relógio biológico masculino que ninguém conta.
Em 2023, Robert De Niro anunciou que seria pai de novo. Tinha 79 anos. No mesmo ano, Al Pacino confirmou uma criança a caminho, aos 83. No Brasil, Zezé Di Camargo virou pai aos 61, em 2024. A reação pública foi uma mistura de admiração e deboche. O que praticamente não apareceu na conversa foi o que a ciência sabe sobre paternidade tardia. Que é um debate muito mais sério do que as manchetes permitem.
Eu não sei se vou ser pai de novo. Tenho minha filha e ela preenche tudo que tenho de disponível como pai. Mas acompanho essa conversa porque ela afeta homens reais, às vezes amigos meus, que postergaram a decisão por razões legítimas e agora estão diante de dados que ninguém apresentou antes.
A média brasileira de idade do primeiro filho masculino é 25,8 anos, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, realizada pelo IBGE. Mas essa média esconde uma variação crescente. Há um grupo expressivo de homens que se tornam pais depois dos 40, alguns por escolha deliberada, outros por circunstância de relacionamento, outros porque simplesmente acharam que tinham tempo.
A ciência diz que o relógio biológico masculino existe.
Um homem saudável produz entre 60 e 100 milhões de espermatozoides por dia. A quantidade não cai dramaticamente com a idade. O problema está na qualidade. Com o envelhecimento, aumenta a fragmentação do DNA espermatico, reduz a motilidade e acumulam-se mutações espontâneas. Um estudo realizado em 2018 pela Escola de Medicina da Universidade de Stanford analisou dados de mais de 40 milhões de partos. A conclusão foi direta: quanto mais velho o pai, maior o risco para a criança, com maior prevalência de parto prematuro, baixo peso ao nascimento e outras complicações obstétricas.
Sobre autismo especificamente, uma metaanálise publicada em 2017, compilando múltiplas pesquisas, identificou que a cada aumento de 10 anos na idade do pai, o risco de a criança desenvolver transtorno do espectro autista aumenta 21%. O mecanismo exato ainda não está totalmente explicado pela ciência, mas a correlação está bem estabelecida. Padrão semelhante aparece em estudos sobre esquizofrenia, transtorno bipolar e déficit de atenção.
Isso significa que um homem de 45 anos não deve ser pai? Não é o que os especialistas dizem.
O presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, Alfredo Canalini, lembra que o dado estatístico precisa de contexto. O risco absoluto ainda é baixo. A maioria dos filhos de pais acima dos 40 nasce saudável. O que muda é a probabilidade, e o caminho para quem pretende ser pai mais tarde passa por avaliação médica especializada, não por resignação ou negação.
Do ponto de vista social, os dados caminham em outra direção. Pais mais velhos geralmente têm maior estabilidade profissional, financeira e emocional. Estão em um momento de vida em que tendem a ter mais disponibilidade real para estar com os filhos. Têm paciência acumulada, perspectiva construída e menos urgência de provar algo para o mundo. A pergunta que a ciência não consegue responder no laboratório é justamente essa: quanto uma presença mais madura e estável compensa um risco biológico ligeiramente elevado? Essa equação é pessoal. Mas deve ser feita com dados, não com ignorância.
Há um ponto que especialistas como o médico Guilherme Leme, especialista em urologia e reprodução assistida, repetem e que raramente chega ao homem: os cuidados que reduzem a fragmentação do DNA espermatico são os mesmos que ele deveria ter aos 30. Evitar obesidade, não fumar, fazer atividade física regularmente, manter alimentação equilibrada. Isso não elimina o efeito da idade, mas atenua o impacto nas células reprodutivas.
A maior armadilha da paternidade tardia não é biológica. É a falsa sensação de que os homens são imunes ao relógio reprodutivo. A psióloga Mary Elly Negrão, do Hospital das Clínicas da FMUSP de Ribeirão Preto, observa que as mulheres geralmente têm consciência das implicações da idade na fertilidade e nas anomalias cromossômicas. Os homens, quase sempre, chegam à consulta sem esse conhecimento. O que precisa mudar não é necessariamente a decisão de ser pai mais tarde. É a qualidade da informação com que essa decisão é tomada.
Ser pai aos 40 é uma escolha que muitos homens fazem com consciência, responsabilidade e capacidade real de estar presente. O que a ciência pede é que essa consciência inclua o dado biológico. Não para criar medo. Para criar preparação.
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