O pai de Instagram e o estranho na mesa de jantar
Pai da Ana Beatriz e fundador do Fator Pai
23 de junho de 2026 • 4 min de leitura · Atualizado em 4 de julho de 2026

Postar a rotina do filho nas redes não transforma ninguém em pai presente. O que a pesquisa sobre sharenting revela sobre a distância entre a imagem que publicamos e a atenção que entregamos.
Eu já fiz isso. Peguei o celular no meio do jantar para registrar uma cena fofa da Ana Beatriz e perdi a cena seguinte, que foi ela me chamar e não receber resposta. O vídeo ficou ótimo. O momento, não.
O chamado sharenting, termo que vem da fusão entre share (compartilhar) e parenting (parentalidade), virou rotina em boa parte das famílias brasileiras. Uma pesquisa da AVG Technologies apontou que aos dois anos de idade mais de 80% das crianças já têm algum tipo de presença digital, quase sempre construída pelos próprios pais. Não são só influenciadores. É o pai do grupo do trabalho, o pai do churrasco de domingo, o pai que você conhece no espelho.
Existe uma diferença fundamental entre documentar a vida do filho e estar presente nela. E essa diferença vai ficando invisível exatamente porque o ato de filmar parece, em tempo real, uma forma de atenção. Você está olhando para ele. Mas está olhando através de uma tela, com o cérebro já no que vai escrever na legenda.
A pesquisa do Instituto Locomotiva com a Unico, divulgada em janeiro de 2025, mostrou que 89% dos pais brasileiros acreditam estar preparados para proteger a privacidade digital dos filhos, mas 73% desconhecem ações básicas que podem gerar vazamentos de dados. O número diz menos sobre negligência e mais sobre uma ilusão de controle. A gente sente que está cuidando porque está postando. Mas cuidar e publicar são verbos diferentes.
Tem um dado que não saiu da minha cabeça depois que li: em 2024, o Brasil registrou 593 mil denúncias de exploração e abuso sexual infantil online, segundo o Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas dos EUA. Um caso por minuto. Parte desse material começa em perfis públicos de pais bem-intencionados que postaram a escola, o uniforme, o parquinho do prédio, o nome da rua. Informações soltas que, juntas, formam um mapa.
Não estou dizendo para parar de postar. Estou dizendo que vale pensar no que você está mostrando, para quem e com qual frequência. A pesquisa TIC Kids Online Brasil, do Comitê Gestor da Internet, registrou que 93% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos estão conectados no país, e que esse acesso começa cada vez mais cedo. A pegada digital que um pai constrói para o filho começa antes de a criança ter qualquer voz sobre isso.
Existe um debate jurídico crescente em torno do tema. O Projeto de Lei 4.776/2023, em tramitação no Congresso, discute os limites do sharenting à luz do ECA e da LGPD. Pesquisadores da UFSM e do IBDFAM têm apontado que a exposição excessiva pode violar o direito à imagem e à privacidade da criança, que não consente com nada disso porque ainda não tem condições de fazê-lo. Na Áustria, uma adolescente processou os próprios pais por fotos da infância publicadas no Facebook. No Brasil, esse debate ainda está engatinhando, mas não vai demorar para chegar aos tribunais.
O problema mais silencioso, porém, não é o jurídico. É o relacional. Quando o pai passa o jantar olhando para o celular em vez de olhar para o filho, a criança aprende algo sobre a hierarquia de atenção dentro de casa. Ela aprende que a versão dela que vai para o Instagram importa mais do que a versão dela que está sentada na cadeira pedindo mais arroz.
Eu comecei a me fazer uma pergunta antes de pegar o celular para filmar a Ana Beatriz: isso é para mim ou para ela? Se a resposta for para mim, tudo bem. Só precisa ser honesta. O pai de Instagram pode ser ótimo. O problema é quando ele substitui o pai da mesa de jantar.
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