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Por que comecei a usar IA pra ser um pai mais presente, não mais ausente

Equipe Fator Pai

Por Frederico Ferreira

Pai da Ana Beatriz e fundador do Fator Pai

23 de junho de 20265 min de leitura · Atualizado em 4 de julho de 2026

Pai negro usando computador em casa

36% das crianças brasileiras já usam IA. Como usar a ferramenta pra ser um pai mais presente, sem deixar a tecnologia substituir a presença real.

Em 2024, mais da metade dos pais que usam ChatGPT recorre à ferramenta especificamente para tirar dúvida sobre como cuidar do filho. Não é mais nicho de quem trabalha em startup ou mora no Vale do Silício. Virou rotina de quem fecha o aplicativo do banco e abre o do chat no mesmo minuto.

Usei a ferramenta semana passada pra saber um pouco mais sobre o sono. Funcionou. Mas não foi a primeira vez que percebi que a ferramenta facilita rápido e arrisca substituir devagar.

O relatório Lost in the Scroll, da Qustodio, divulgado no início deste ano, cruzou dados anonimizados de mais de 400 mil famílias em seis países, incluindo o Brasil pela primeira vez. A conclusão prática: quase uma em cada três crianças brasileiras (36%) usou o aplicativo do ChatGPT em 2025, contra uma em cada cinco (22%) no ano anterior. Segundo os próprios pais ouvidos, o uso mais comum dos filhos é em tarefa de casa e atividade escolar, mas quase metade afirma que a criança também recorre à IA pra pedir conselho.

Nos Estados Unidos, o Pew Research Center entrevistou 1.458 adolescentes e seus responsáveis e encontrou uma lacuna que deveria preocupar qualquer pai. Apenas 51% dos pais acreditam que o filho usa inteligência artificial. Na prática, 64% dos adolescentes admitem usar chatbot com regularidade. A Common Sense Media, organização de defesa de direitos da infância, chegou a número parecido. O problema não é a ferramenta. É o tamanho do buraco entre o que o pai imagina que está acontecendo e o que de fato acontece na tela do filho.

Tem uma camada que atravessa esse debate e que vale trazer pra mesa brasileira: acesso desigual. Nos Estados Unidos, entre adolescentes de famílias com renda mais alta, a maioria já conhece e usa a ferramenta; entre famílias de renda mais baixa, o desconhecimento ainda é alto. A OCDE já anunciou que o PISA de 2029 vai medir competência ligada à alfabetização em inteligência artificial. Ou seja, não é mais questão de gosto pessoal do pai. É competência que a escola, em algum momento, vai cobrar do filho. Quem chega atrasado nessa conversa em casa, chega atrasado em algo que vai ser avaliado.

O ângulo que pouca gente discute é o uso da IA pelo próprio pai, não pelo filho. Um estudo de 2024 mostrou que 52,7% dos pais usam ChatGPT especificamente pra buscar orientação de cuidado com a criança. Sam Altman, dono da empresa que criou a ferramenta, contou em entrevista que virou pai recente e que, nas primeiras semanas, recorria à ferramenta toda hora pra tirar dúvida sobre o bebê. Hoje usa mais pra entender fase de desenvolvimento. Se até o criador da tecnologia depende dela pra entender o próprio filho, a pergunta não é se a IA vai entrar na paternidade. Já entrou.

Aqui entra minha ressalva. Psicóloga infantil já relatou mudança de comportamento nos próprios pacientes: antes chegavam com diagnóstico tirado do Google, agora citam o ChatGPT como se fosse parecer médico. Isso é perigoso quando a confiança na máquina substitui visita ao pediatra ou conversa com terapeuta. Uso a IA pra organizar ideia, resumir estudo, gerar uma explicação lúdica pra dúvida de criança. Não uso pra decidir nada que envolva saúde, comportamento ou emoção da Ana Beatriz sem confirmar com profissional de carne e osso.

A diferença entre IA que aproxima e IA que afasta está numa escolha simples: a ferramenta resolve a tarefa que o pai não tinha tempo de fazer, ou substitui a conversa que o pai não teve vontade de ter? A primeira libera tempo pra presença real. A segunda é terceirização disfarçada de cuidado.

Ninguém vai te dar nota por usar ou não usar IA com o filho. Mas vale perguntar, antes de digitar a próxima pergunta no chat: isso é pra te ajudar a estar mais presente, ou pra te poupar do trabalho de estar presente?

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