Home / Carreira & Finanças

O que vai sumir do mercado de trabalho até 2030, e o que muda pro seu filho

Frederico Ferreira

Por Frederico Ferreira

Pai da Ana Beatriz e fundador do Fator Pai

Publicado em 4 min de leitura · Atualizado em

Robô ao lado de uma pessoa, ilustrando inteligência artificial no dia a dia

O Fórum Econômico Mundial projeta 92 milhões de empregos eliminados e 170 milhões criados até 2030. O que esse saldo muda na conversa sobre o futuro do seu filho.

Até 2030, 22% dos empregos que existem hoje vão passar por mudança significativa. Não é previsão de futurista de congresso, é número do relatório mais citado sobre o tema, o Future of Jobs Report do Fórum Econômico Mundial, divulgado em janeiro de 2025.

Trabalho com televisão há vinte anos. Vi o telejornal mudar de fita pra arquivo digital, de equipe de dez pra equipe de três fazendo o trabalho de dez. Quando penso no que a Ana Beatriz vai escolher como profissão, penso primeiro no que já vi desaparecer dentro da minha própria redação.

O levantamento do Fórum Econômico Mundial ouviu mais de mil empregadores em 55 economias, incluindo o Brasil, representando cerca de 14 milhões de trabalhadores. A projeção é de 170 milhões de empregos novos até 2030 e 92 milhões de empregos eliminados, o que dá um crescimento líquido de cerca de 7%. Os números parecem grandes e abstratos até você olhar a lista de funções com maior risco: atendente de correio, caixa de banco, operador de telemarketing, auxiliar administrativo, assistente jurídico, caixa de supermercado. Funções que existem hoje em quase toda cidade do Brasil.

O Brasil está dentro dessa amostra, não é estatística só de fora. E o recorte setorial ajuda a enxergar isso de perto. Funções repetitivas, em atendimento, processamento de dado e tarefa administrativa, perdem espaço primeiro, em qualquer país. Funções que misturam julgamento humano com tecnologia, da saúde à energia, crescem primeiro também em qualquer país. A diferença entre o Brasil e os países com previdência e rede de proteção mais forte é que aqui a transição custa mais caro pra quem fica no meio do caminho sem requalificação.

Do outro lado da mesma lista estão especialista em inteligência artificial, analista e cientista de dados, especialista em energia renovável e cibersegurança. O relatório também mostra que 59% da força de trabalho mundial vai precisar se requalificar até 2030, e que 39% das competências usadas hoje em qualquer profissão vão precisar de atualização no mesmo período.

Aqui está o dado que acho mais importante de levar pra casa, porque ele não fala de profissão específica, fala de habilidade. O próprio relatório lista pensamento analítico, resiliência, criatividade e capacidade de liderar pessoas como as competências que continuam tendo valor independente de qual profissão a tecnologia ainda não inventou. Ou seja, a pergunta certa pro filho não é que profissão você quer ter, é que tipo de problema você gosta de resolver.

Confesso que desconfio um pouco do gancho fácil de profissão que vai sumir, porque relatório de tendência erra direção o tempo todo e a vida real tem mais nuance do que ranking. Caixa de banco já estava em queda há uma década antes do ChatGPT existir. Mas dá pra usar esse tipo de dado sem virar profecia: ele serve pra mostrar pro filho que escolher carreira só pelo salário de hoje, sem pensar se a tarefa principal dela é repetitiva ou não, é apostar contra um relatório que tem peso técnico considerável atrás.

Não vou sentar com a Ana Beatriz, quando ela tiver oito anos, pra falar de currículo. Mas já decidi uma coisa: vou tratar curiosidade e gosto por resolver problema como mais valioso do que nota em matéria específica. Resiliência, segundo o próprio relatório, é citada com mais frequência por empregador do que qualquer habilidade técnica isolada.

Profissão certa em 2030 talvez nem tenha nome ainda. Aposta mais segura é treinar, desde já, a parte que nenhuma atualização de IA substitui: a vontade de aprender de novo quando o que você sabia parou de servir.

O que o Brasil já sente dessa onda

O relatório do Fórum Econômico Mundial mostra o mapa global, mas o CAGED e a PNAD Contínua do IBGE já registram o efeito local. Vagas em telemarketing, caixa e atendimento presencial vêm perdendo participação no estoque de empregos formais, enquanto tecnologia da informação, saúde e energia aparecem com frequência entre os setores de maior criação líquida de postos. O IPEA aponta que trabalhadores com escolaridade média e função repetitiva são os mais expostos à automação parcial, e são também os que menos acessam programas de requalificação. O recado prático para pai e mãe é que a formação técnica isolada, sem base de leitura, matemática e capacidade de aprender novo software, tem prazo de validade curto.

Habilidades que atravessam o ciclo tecnológico

O próprio Future of Jobs Report lista, por ordem de crescimento em demanda até 2030, um conjunto de competências que se repete há três edições seguidas do estudo:

  • Pensamento analítico e resolução de problemas complexos.
  • Fluência com IA e tratamento básico de dados.
  • Curiosidade e aprendizado contínuo, medido por vontade e não por diploma.
  • Resiliência, flexibilidade e agilidade emocional.
  • Liderança, empatia e influência social.
  • Letramento tecnológico geral, não só programação.

Nenhuma delas depende de escolha precoce de carreira. Todas dependem de exposição, prática e tempo. É por isso que reduzir a pressão sobre “escolher a profissão certa aos 17” costuma ser melhor conselho do que apostar cedo em curso técnico específico.

Checklist de conversas por faixa etária

  • Até 8 anos: valorizar curiosidade e brincadeira livre. Perguntar o que a criança gosta de fazer, não o que quer ser.
  • 9 a 12 anos: introduzir projetos que exijam persistência, como aprender um instrumento, cozinhar uma receita nova ou consertar algo. Habilidade é subproduto do processo.
  • 13 a 16 anos: incentivar exposição a mais de uma área, com estágio informal, voluntariado ou curso curto. Descartar profissão é tão valioso quanto escolher.
  • 17 anos em diante: separar vestibular de carreira. Curso é ponto de partida, não sentença. Reforçar que 39% das competências vão mudar em cinco anos, segundo o próprio WEF.

Fontes consultadas

  • World Economic Forum, Future of Jobs Report 2025.
  • World Economic Forum, Future of Jobs Survey 2024, base metodológica do relatório de 2025.
  • IBGE, PNAD Contínua, e Ministério do Trabalho, Novo CAGED, para o recorte brasileiro.

Leia também

Outras reportagens em Carreira & Finanças

Newsletter semanal

Gostou desta análise? Receba a próxima na sua caixa.

Uma edição por semana com reportagens como esta. Sem spam.

Grátis. Sem spam. Cancele quando quiser.

Carreira & Finanças← Voltar para a Home