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Os primeiros 100 dias com um bebê em casa: o que ninguém te conta antes de você virar pai

Equipe Fator Pai

Por Frederico Ferreira

Pai da Ana Beatriz e fundador do Fator Pai

8 de junho de 20264 min de leitura

Father holding sleeping newborn baby wrapped in striped blanket in nursery

Fiocruz aponta que 1 em cada 4 mães tem depressão pós-parto no Brasil. O que a ciência sabe sobre o que acontece com o pai nos primeiros meses e como atravessar esse período sem fingir que é fácil.

Tem uma conversa que não acontece antes do nascimento. Todo mundo fala sobre gravidez, parto, enxoval. Ninguém te senta e diz o que são os primeiros cem dias com um bebê em casa de verdade.

Quando minha filha chegou, eu me preparei do jeito que um jornalista se prepara para uma reportagem difícil. Li, pesquisei, ouvi gente que sabia mais do que eu. E ainda assim, na quarta semana, às duas da manhã, com ela chorando de um jeito que eu não conseguia decifrar e minha mulher exausta ao meu lado, eu me senti completamente despreparado. Não por falta de informação. Por excesso de expectativa sobre mim mesmo. Aqui em casa, minha mulher trabalha muito fora e eu acabei assumindo boa parte das madrugadas, então esse despreparo virou intimidade rápido, no susto.

O que a ciência sabe sobre esse período é mais honesto do que o que a maioria dos pais ouve antes de passar por ele.

A Fundação Oswaldo Cruz, por meio da Pesquisa Nascer no Brasil, identificou que 1 em cada 4 mães brasileiras desenvolve sintomas de depressão pós-parto no período de até seis meses depois do nascimento. Um número que a maioria subestima porque a narrativa dominante sobre aquele período ainda é de felicidade intensa e imediata. O que aparece menos é que a depressão paterna também existe. O Nascer no Brasil II, projeto da Fiocruz com coleta de dados encerrada em março de 2025, realizou entrevistas com os pais três meses depois do nascimento justamente para entender o que acontece com a saúde mental masculina nesse período. A literatura científica que embasa o projeto aponta que os pais apresentam maior risco de depressão no pós-parto, assim como as mães.

Os primeiros cem dias têm uma característica específica: são o período em que a criança ainda não te responde com intenção. Ela não sorri de propósito, não te reconhece com certeza, não devolve o retorno afetivo que naturalmente buscamos quando investimos energia em alguém. Para alguns pais, isso cria um sentimento difuso de desconexão que raramente é nomeado porque não tem nome socialmente aceito. Não é frieza. Não é falta de amor. É o vínculo ainda em construção, no ritmo neurológico do bebê, não no ritmo emocional do adulto.

O primeiro sorriso social, aquele que é resposta e não reflexo, geralmente aparece entre seis e oito semanas. Para muitos pais, esse é o momento em que a conexão se solidifica de forma perceptível. Isso não significa que havia problema antes. É fisiologia do desenvolvimento.

O sono é o segundo elemento que ninguém quantifica direito antes de acontecer. Recém-nascidos dormem entre 14 e 17 horas por dia, segundo a National Sleep Foundation dos Estados Unidos. Mas dormem em ciclos de duas a quatro horas, sem diferenciação consistente entre noite e dia até aproximadamente os três meses. A matemática é simples e brutal: não existe dormida de seis horas seguidas nessa fase, exceto por acidente. O pai que tenta funcionar com o mesmo nível de produtividade dos meses anteriores não está sendo resiliente. Está negando a realidade do que o corpo precisa para operar com segurança.

A rede de apoio não é conforto, é prevenção. A psióloga Gabriela Nazário, mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG, e profissionais do Hospital das Clínicas da FMUSP de Ribeirão Preto registram, em contextos clínicos distintos, que a presença ativa de um parceiro ou de pessoas de confiança no pós-parto imediato é o fator que mais protege contra o agravamento de quadros depressivos na mãe. Para o pai, isso tem uma implicação direta: estar presente não é tarefa paralela ao cuidado. É parte central dele. Incluindo o cuidado com a própria saúde mental.

Um estudo da fundação britânica Parent-Infant, citado pelo Jornal da USP, revelou que 1 em cada 10 mulheres tem dificuldade em criar vínculo com o bebê nos primeiros meses, e que 73% delas não receberam orientação sobre como fortalecer essa conexão. O dado vale para pais também. O vínculo não nasce pronto. Ele é construído com presença repetida, com as trocas de fralda da madrugada, com o banho que durou dez minutos e nada de especial aconteceu mas aconteceu.

Existe uma armadilha de narrativa que atrapalha mais do que a privação de sono: a ideia de que os primeiros cem dias são um período a ser superado para chegar no bom de verdade. Não é superação. É adaptação. O modo de vida muda de forma permanente e o que se constrói nesse período, a rotina, o vínculo, a forma de dividir o cuidado com a companheira, estabelece a estrutura dos anos que vêm depois.

O que ninguém te conta antes de você virar pai é que o medo que você sente nas primeiras semanas não é sinal de que você não está pronto. É sinal de que você está levando a sério.


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